Comentários a uma sentença: o Caso Lula

Do Rede Brasil Atual

A sentença proferida pelo juiz Sérgio Moro contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é tema do livro Comentários a uma sentença anunciada: o Processo Lula. Editado pela Frente Brasil de Juristas pela Democracia em defesa do Devido Processo Legal, o livro de 542 páginas, está disponível para download em português.

Comentarios-a-Uma-Sentenca-Anunciada

São 103 artigos escritos por 121 autores. Entre eles, Eugênio Aragão, Pedro Estevam Serrano, Wadih Damous, Celso Antônio Bandeira de Mello e Tarso Genro.

O documento jurídico é resultado de um movimento de juristas brasileiros que examinaram cuidadosamente a sentença proferida por Sérgio Moro no âmbito do processo que tramitou na 13ª Vara Federal de Curitiba, no caso que ficou conhecido como “tríplex do Guarujá”.

Os autores fazem um exame técnico da condenação, baseadas em meras convicções de um processo bastante problemático sob qualquer ângulo – e diagnosticam o uso da Justiça com objetivos políticos. Além de um criterioso exame da ciência penal, o livro é o que chamam de Carta Compromisso com a Cidadania, a Democracia e o Estado de Direito.

Da apresentação do livro:
Comentários a uma sentença: o Caso Lula” é talvez o mais importante documento jurídico publicado no Brasil em décadas. A presente coletânea de artigos nasceu de um movimento espontâneo e bastante significativo de juristas brasileiros que examinaram cuidadosamente a sentença proferida no âmbito do processo que tramitou na 13ª Vara Federal de Curitiba, no caso que ficou conhecido na mídia como o do “tríplex do Guarujá”.

Para além do caráter inédito da condenação criminal de um ex-Presidente da República em circunstâncias políticas em tese não comparáveis às das ditaduras brasileiras do século passado, a sentença, que em larga medida era aguardada como desfecho não surpreendente deste processo criminal, provocou imediata reação entre os que a leram comprometidos unicamente com o propósito de tentar entender os motivos pelos quais Luiz Inácio Lula da Silva está sendo punido pela prática dos crimes de corrupção passiva e lavagem de ativos de origem ilícita.

A certeza da condenação era fato. Admiradores e opositores do ex-presidente sabiam que não haveria outro veredito. A dúvida residia em conhecer as razões da condenação, exigência normativa da Constituição de 1988 que, pelas inevitáveis repercussões políticas do mencionado processo, mostraram o acerto do Constituinte de 1987-1988 ao elevar a fundamentação das decisões ao patamar de garantia constitucional do processo.

Apenas recentemente, depois de vinte anos de intensa batalha jurídica protagonizada por Fernando Fernandes, por coincidência advogado de Paulo Tarciso Okamoto, que neste caso do “tríplex do Guarujá” figura como réu ao lado do ex-presidente Lula, logrou-se cumprir decisão do Supremo Tribunal Federal, dando a conhecer os áudios dos julgamentos que o Superior Tribunal Militar (STM) realizou durante a ditadura de 1964-1985.

Os referidos julgamentos, tornados públicos agora, revelam as virtudes democráticas da publicidade do processo e da motivação das decisões. Frases do tipo “Eu vou tomar uma decisão revolucionária, deixando de lado a lei, porque pela lei não se pode condená-lo de maneira nenhuma”, ditas nos julgamentos, pelas mais altas autoridades judiciárias militares e civis, em um ambiente de segredo, hoje são conhecidas de todos os que se derem ao trabalho de ouvir os áudios daquelas sessões.

A motivação das decisões e a publicidade dos julgamentos são as armas pacíficas do Estado de Direito contra arbítrios e abusos, além de proporcionarem aos tribunais a oportunidade de uma maior qualidade e eficiência na tarefa de corrigir sentenças consideradas injustas, malgrado proferidas com apoio em sincera crença de que o direito foi aplicado ao caso concreto.
Ademais, o trabalho dos juízes, como expressão de atividade republicana regulada por um conjunto escrupuloso de regras jurídicas materiais e processuais, está sujeito a ser conhecido e avaliado não somente pelas partes destinatárias diretas da sentença. Cada pessoa, interessada na sorte de seu semelhante submetido a um processo criminal, dispõe de meios e recursos para promover uma verdadeira arqueologia das razões pelas quais alguém é condenado ou absolvido.

A publicidade do processo e a motivação das decisões funcionam como escudos contra aquele tipo de justificação acima referido, frequente à época no STM, próprio dos julgamentos políticos. Em casos no quais a condição de processo político não é encoberta pela forma criminal com que se apresentam, é por meio do escrutínio das razões do magistrado que a cidadania se sente protegida ou ameaçada.

Se os motivos de eventual condenação correspondem ao que prevê o corpus jurídico vigente e a lei penal está sendo aplicada em conformidade com o entendimento dominante acerca do conjunto de conceitos e noções produzidos pela chamada dogmática penal no Brasil, há de se presumir justificável a sentença e, assim, o seu acerto dependerá da correção do juízo do magistrado acerca da avaliação da prova, que deve ter sido produzida em um ambiente de rigorosa observância das regras do devido processo legal.

No entanto, se os conceitos e noções canônicos do direito penal brasileiro são afastados e, além disso, as garantias do devido processo são vulneradas, recorrendo o juiz a critérios de avaliação da prova e a outras práticas processuais no mínimo altamente discutíveis, o ordinário converte-se em exceção e os sinais de alerta, na defesa do Estado de Direito, imediatamente devem ser acionados.

Na hipótese há expressivo consenso de que o direito estrangeiro aparentemente substituiu o nosso, operando-se o fenômeno que Elisabetta Grande denomina de circulação simbólica de modelos jurídicos oriundos de diferentes âmbitos da cultura jurídica e de diferentes áreas do próprio direito.

O manejo dos conceitos e noções seguiu por essa trilha na condenação, reverberando convicções particulares e presunções formuladas em matéria penal em desconformidade com a análise de fatos apoiada em provas.

Embora se trate de simples apresentação do livro, não custa esclarecer o leitor acerca do significado, em termos de perigo para as liberdades individuais, de converter a exceção em regra, como em minha opinião fica claro na sentença tratar-se da opção do magistrado. Sobre o assunto sublinha Janaína Matida:
“A presunção judicial não é outra coisa senão o raciocínio sobre os fatos realizado pelo julgador; é o que se espera existir em sistemas jurídicos nos quais seja vigente a diretiva de livre e racional valoração, pois cabe ao juiz valorar as provas como informações suficientes (ou não) para a determinação da ocorrência dos fatos sob discussão. Sua qualidade está diretamente vinculada à generalização empírica por ele selecionada; logo se a generalização não é universal, ela, por definição suporta a possibilidade de exceções. Portanto, a construção do raciocínio deverá cuidar de demonstrar que o caso individual é regra e não exceção.”

O raciocínio condenatório que se apoia na exceção, recorre retoricamente a modelos jurídicos estrangeiros e traduz indevidamente conceitos penais – como salta aos olhos na condenação do ex-presidente por corrupção – fazendo letra morta da advertência da impossibilidade de transplantes do gênero, haveria de provocar vívida reação entre os estudiosos do direito.

O verdadeiro escrete de juristas, professoras e professores, advogados e intelectuais que seguiam de perto o processo, mobilizou-se ao constatar a excepcionalidade do estilo e dos argumentos empregados pelo juiz criminal na mencionada decisão.

Assim, o processo todo – e não somente a sentença – foi passado a limpo nos artigos que o leitor tem em mãos e que são de exclusiva responsabilidade de cada autor.

A centena de textos esmiúça o procedimento, esclarece que regras efetivamente estão em vigor e como incidem no caso concreto. Na opinião dos autores dos artigos estas regras não foram observadas e a sua não observância levou a que se proferisse uma decisão injusta.

Releva notar que em tempos de julgamento público e correspondente publicidade da motivação não há mais espaço para deixar de aplicar a lei para condenar.

Algo do gênero, portanto, subverte a lógica e seria dificilmente aceitável ainda mais neste período de instabilidade política e insegurança jurídica. Interrogar cada argumento, indagar de sua adequação aos procedimentos legais e à interpretação corrente configurou o método que autoras e autores utilizaram para verificar se e em que medida foi violado ou respeitado o devido processo legal.
A probabilidade de condenação do ex-presidente Lula e a sua confirmação são muito mais do que meras convicções de um processo bastante problemático sob qualquer ângulo.

O leitor tem consigo mais do que a obra de cento e vinte e um autores, retratada em cento e um artigos que submetem todos os aspectos da longa sentença ao criterioso exame que a ciência penal, o direito constitucional e outras áreas do saber consideram fundamentais para afirmar o Estado de Direito no Brasil.

“Comentários a uma sentença: o Caso Lula” é uma espécie de Carta Compromisso com a Cidadania, a Democracia e o Estado de Direito.

Confiar que os tribunais farão justiça a Luiz Inácio Lula da Silva é acreditar que a máxima dos julgamentos dos anos 70, no STM – “Eu vou tomar uma decisão revolucionária, deixando de lado a lei, porque pela lei não se pode condená-lo de maneira nenhuma” – está definitivamente sepultada entre nós. Se não há crimes, e crimes não há, a absolvição é a única decisão possível.

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